O debate entre os sete candidatos ao cargo de reitor da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV) para o mandato 2026–2030 traçou um retrato claro das encruzilhadas estratégicas que a maior instituição de ensino superior do país enfrenta. Num contexto marcado por constrangimentos financeiros persistentes, exigências de modernização e maior pressão social por resultados, as propostas apresentadas revelam diferentes caminhos para um objetivo comum: tornar a Uni-CV sustentável, relevante e competitiva a nível nacional e internacional.

Apesar da diversidade de enfoques, há pontos de convergência evidentes. Todos os candidatos reconhecem a urgência de reformar o modelo de governação, reforçar a ligação ao Estado e à sociedade e colocar o estudante no centro das políticas académicas. O que os distingue são as prioridades estratégicas e os instrumentos propostos para alcançar esses fins.

Coesão institucional e compromisso social

A candidatura de Maria de Lourdes Gonçalves assenta numa visão de continuidade com modernização. Defendendo uma universidade policêntrica, inovadora e territorialmente equilibrada, a candidata aposta numa governação humanizada e socialmente comprometida. O estudante surge como eixo central da gestão, numa lógica de inclusão e qualidade.

Entre as propostas destacam-se a criação de um ecossistema de saúde, que inclui uma clínica social universitária, o lançamento de cursos bietápicos — como medicina e enfermagem — e um forte investimento no ensino à distância e em língua inglesa. No plano financeiro, Maria de Lourdes Gonçalves sustenta que a sustentabilidade só será possível se o Estado assumir integralmente as despesas correntes da instituição.

Capital humano como motor da mudança

Para Felisberto Mendes, o principal problema da Uni-CV não é apenas financeiro, mas humano. O candidato identifica a desmotivação como um dos maiores entraves ao desempenho institucional e propõe uma gestão centrada nas pessoas, valorizando docentes, técnicos e estudantes.

A sua proposta inclui a introdução de ferramentas de inteligência artificial e modelação computacional no ensino, bem como a criação de uma pró-reitoria dedicada às Artes, Cultura, Extensão e Bem-Estar. Em termos de sustentabilidade, aposta na redução do consumo energético em 40% e na criação de um centro de sondagens como fonte de receitas externas.

Autonomia, metas e transparência

Sob o lema “Por uma Uni-CV Autónoma e Transparente”, Astrigilda Silveira defende uma liderança colaborativa, orientada por metas claras e indicadores de desempenho. A candidata propõe romper com o isolamento disciplinar e promover uma cultura institucional baseada na responsabilização e na inovação.

Entre as iniciativas estruturantes estão o projeto “Currículo 2030”, focado no desenvolvimento de competências transversais, a implementação do “Uni-CV Solar Campus” e a criação de dez empresas sustentáveis dentro da universidade até 2030. Astrigilda Silveira propõe ainda um gabinete especializado para a captação de fundos internacionais de investigação.

Pacto político e identidade institucional

A candidatura de Crisanto Barros parte de um diagnóstico severo: a universidade encontra-se fragmentada e financeiramente fragilizada. Para o candidato, é indispensável reconstruir a identidade institucional da Uni-CV e renegociar o seu modelo de financiamento com o Estado.

Crisanto Barros defende a institucionalização plena das unidades orgânicas, conferindo-lhes autonomia estratégica e científica, e propõe um “pacto inicial” com o Governo que assegure o financiamento de longo prazo das infraestruturas e equipamentos, num contexto que descreve como de “insolvência” institucional.

Investigação aplicada e espírito empreendedor

Jorge Tavares apresenta uma visão orientada para a excelência académica e o impacto social da investigação. A sua proposta centra-se na rentabilização dos recursos humanos e das infraestruturas existentes, posicionando a Uni-CV como referência para a governação e o desenvolvimento do país.

O candidato defende a adoção de metodologias ativas de ensino, a criação de um fundo de apoio à investigação e a instalação de oficinas de prestação de serviços — como uma oficina de mecânica automóvel — que conciliem geração de receitas e aprendizagem prática. A transparência surge como pilar central, com a proposta de uma plataforma pública para consulta de todos os atos administrativos.

Diplomacia científica e projeção internacional

A candidatura de Odair Varela aposta numa reconfiguração profunda da governação universitária, ancorada na cooperação internacional. O objetivo é posicionar a Uni-CV como líder no espaço das universidades insulares e africanas.

Para isso, propõe a criação de uma pró-reitoria exclusivamente dedicada à Cooperação Internacional e à Internacionalização, operacionalizando o conceito de “diplomacia científica”. No plano financeiro, defende a monetização dos campi com a abertura a serviços comerciais e a transformação do núcleo de ensino à distância num campus virtual internacional.

Gestão estratégica e resiliência institucional

Com o lema “Compromisso e Engajamento por uma Universidade Empreendedora e Resiliente”, João Cardoso propõe uma gestão orientada para resultados e eficiência operacional. A sua visão assenta na criação de uma cultura de planeamento, avaliação e melhoria contínua.

Entre as medidas propostas estão a implementação de um ciclo de gestão estratégica, a criação de gabinetes-laboratório — como jurídico, gestão de eventos e creche universitária — e o reforço de percursos formativos modulares para além das licenciaturas. O inventário digital de todo o património surge como instrumento-chave para uma utilização mais racional dos recursos.

Convergências e escolhas decisivas

Apesar das diferenças de estilo e prioridade, as sete candidaturas convergem num ponto essencial: a necessidade urgente de resolver a asfixia financeira da Uni-CV, apostando na transição energética, numa nova relação com o Estado e na diversificação de receitas. O consenso estende-se também à centralidade dos estudantes nas políticas de inclusão, sucesso académico e empregabilidade.

A eleição do próximo reitor não será, por isso, apenas uma escolha de liderança, mas uma decisão estratégica sobre o modelo de universidade que Cabo Verde pretende construir para a próxima década.