Jovens cabo-verdianos querem estudar fora: Portugal domina preferências e aumenta preocupação com a fuga de talentos

Cidade da Praia — A maioria dos estudantes cabo-verdianos que conclui o ensino secundário pretende prosseguir os estudos no estrangeiro e vê Portugal como o principal destino académico. Um estudo apresentado durante a conferência “Futuro Superior: decisão, transição e desafios dos alunos cabo-verdianos no ensino superior em Portugal”, realizada na Cidade da Praia, revela que 83% dos finalistas que desejam ingressar no ensino superior apontam Portugal como primeira escolha, enquanto apenas 18% manifestam intenção de frequentar instituições de ensino superior em Cabo Verde.

O levantamento, realizado junto de 9.152 alunos do 12.º ano dos anos letivos de 2022/2023 e 2023/2024, mostra ainda que cerca de 95% dos estudantes pretendem continuar os estudos após o ensino secundário, evidenciando uma forte procura pelo ensino superior, mas com uma preferência clara pela formação no exterior.

Entre as áreas de formação mais procuradas destacam-se Direito, escolhido por cerca de um em cada cinco estudantes, seguido dos cursos de Engenharia e Saúde. No entanto, o estudo identifica um desfasamento entre as expectativas dos jovens e os resultados efetivamente alcançados. Enquanto muitos acreditam que aproximadamente metade dos estudantes cabo-verdianos conclui a licenciatura em Portugal, os dados oficiais indicam que apenas 36% obtêm o grau académico nos primeiros sete anos após a matrícula.

Segundo os investigadores, a escolha por Portugal está associada à perceção de melhores oportunidades de emprego, maior estabilidade profissional e uma oferta formativa mais diversificada. Durante a conferência, foi igualmente destacado que muitos estudantes iniciam o processo de mobilidade internacional com informação limitada sobre os custos da formação, os procedimentos legais, os mecanismos de apoio e as condições de integração no país de acolhimento, fatores que podem dificultar o percurso académico e a adaptação ao novo contexto.

Os resultados enquadram-se numa tendência mais ampla identificada por estudos recentes sobre mobilidade e migração em Cabo Verde. De acordo com o 10.º Inquérito Afrobarometer/Afrosondagem, realizado em 2024, 64% dos cabo-verdianos afirmam considerar emigrar, proporção que aumenta para 76% entre os jovens dos 18 aos 35 anos. A procura de melhores perspetivas económicas, profissionais e de qualidade de vida surge como a principal motivação para essa intenção.

Em conjunto, estes indicadores evidenciam um desafio estratégico para Cabo Verde: a capacidade de reter e valorizar o seu capital humano. A crescente mobilidade estudantil internacional reforça o debate sobre a necessidade de consolidar a qualidade e a atratividade do ensino superior nacional, ampliar as oportunidades de inserção profissional para os jovens qualificados e desenvolver políticas que incentivem o regresso dos diplomados após a conclusão da formação no exterior.

Referências

  • Inforpress – Estudo sobre intenções académicas dos finalistas do ensino secundário em Cabo Verde
  • Lusa / Notícias ao Minuto – Cabo-verdianos querem estudar em Portugal, mas enfrentam falta de informação
  • AMAN Alliance – Migração em Cabo Verde: intenções e perceções da juventude
  • Estudos sobre juventude, educação e migração (2022–2024)