O debate entre os candidatos ao cargo de reitor da Universidade de Cabo Verde para o mandato 2026–2030 expôs, sem rodeios, o principal desafio que hoje condiciona o futuro da instituição: a asfixia financeira. Num diagnóstico convergente, mas com soluções diversas, os sete candidatos reconheceram que a maior universidade pública do país enfrenta um modelo de financiamento estruturalmente frágil, exigindo reformas profundas tanto na relação com o Estado como na própria lógica de funcionamento interno.

Ao longo do debate, ficou claro que a sustentabilidade económica da Uni-CV deixou de ser apenas uma questão de boa gestão administrativa. Passou a ser entendida como um problema político, estratégico e até civilizacional, na medida em que condiciona a capacidade da instituição cumprir a sua missão de ensino, investigação e extensão universitária.

Financiamento estatal: o nó central

A renegociação do modelo de financiamento com o Estado emergiu como eixo central das propostas. Crisanto Barros foi o mais contundente ao classificar a situação financeira da Uni-CV como próxima da “insolvência”, sublinhando que o Estado suporta apenas cerca de um terço das receitas necessárias. Para o candidato, é indispensável um “pacto inicial” com o Governo que assegure o financiamento integral das despesas com pessoal e infraestruturas.

Na mesma linha, Maria de Lourdes Gonçalves lembrou que cerca de 80% do orçamento é absorvido por salários e custos de funcionamento, defendendo que essas despesas estruturais devem ser totalmente cobertas pelo Orçamento do Estado. Só assim, argumentou, as receitas próprias poderão ser canalizadas para a melhoria da qualidade académica. Odair Varela reforçou este entendimento, alertando que um financiamento público que cobre apenas 37% a 40% das despesas é manifestamente insuficiente para garantir estabilidade institucional.

Energia como variável estratégica

Se o financiamento estatal é visto como condição de base, a eficiência energética surge como uma das vias mais imediatas para aliviar a pressão financeira. Astrigilda Silveira apresentou o projeto “Uni-CV Solar Campus”, que pretende reduzir drasticamente a fatura energética — atualmente marcada por dívidas que rondam os 35 milhões de escudos — e libertar recursos para investimento em ciência e inovação.

Felisberto Mendes foi ainda mais ambicioso ao defender uma redução de 40% no consumo energético através de novos procedimentos e incentivos, mesmo antes da instalação de painéis solares. Já Jorge Tavares e Maria de Lourdes Gonçalves propuseram transformar os campi universitários em verdadeiros laboratórios vivos de descarbonização, com parques solares, sensores inteligentes e gestão racionalizada de recursos.

Universidade empreendedora e aberta ao mercado

Outro ponto de convergência foi a necessidade de diversificar receitas e reforçar a prestação de serviços à sociedade. Astrigilda Silveira defendeu a criação de dez empresas sustentáveis no seio da universidade até 2030, com revisão do regulamento de prestação de serviços para assegurar uma repartição mais justa dos ganhos entre a instituição e os seus colaboradores.

Jorge Tavares apresentou uma visão pragmática, propondo oficinas de prestação de serviços à comunidade — como uma oficina de mecânica automóvel — que simultaneamente gerariam receitas e funcionariam como espaços de aprendizagem prática para os estudantes. Odair Varela avançou com a ideia de monetizar os campi universitários através da instalação de lojas, supermercados e outros serviços comerciais. Felisberto Mendes, por sua vez, sugeriu a criação de um centro de sondagens e a comercialização de tecnologias agrícolas desenvolvidas na universidade.

Diplomacia científica e fundos internacionais

A captação de financiamento externo foi outro dos eixos estratégicos destacados. Odair Varela falou em “diplomacia científica”, defendendo a criação de uma pró-reitoria dedicada exclusivamente à cooperação internacional, com foco não apenas na Europa, mas também nas Américas, Ásia e África. João Cardoso propôs reforçar a autonomia das unidades de investigação, capacitando-as para elaborar projetos competitivos em programas internacionais. Jorge Tavares sugeriu a criação de um núcleo especializado para apoiar investigadores na formatação e submissão de candidaturas a financiamentos externos.

Gestão interna e fator humano

Por fim, a sustentabilidade financeira foi associada à qualidade da gestão interna e à retenção de estudantes. João Cardoso defendeu um ciclo de gestão orientado para resultados, incluindo o inventário digital de todo o património da Uni-CV, para otimizar o uso dos recursos existentes. Felisberto Mendes apontou para a reconversão de docentes com carga horária reduzida, evitando novas contratações. Jorge Tavares resumiu esta dimensão numa ideia simples: se a universidade oferecer ensino de qualidade e atendimento humanizado, os estudantes permanecem, pagam propinas e garantem a principal fonte de receita própria da instituição.

Um consenso com diferentes caminhos

O debate deixou evidente que, apesar das diferenças de enfoque, existe um consenso alargado quanto ao diagnóstico: sem uma combinação entre financiamento público estável, rigor na gestão interna, inovação energética e abertura ao mercado e à cooperação internacional, a Uni-CV dificilmente garantirá a sua sustentabilidade futura. A escolha do próximo reitor, a 28 de janeiro, será decisiva para definir qual destas visões conduzirá a maior instituição de ensino superior do país nos próximos quatro anos.